Desde que ingressei na Polícia Militar do Estado da Bahia, no ano de 1988, convivo com o confronto entre aqueles integrantes da nossa Corporação que defendem o chamado “trote” nos moldes tradicionais e aqueloutros que, mesmo em minoria, abominam tais práticas, e propugnam pela adoção de atividades outras, bem mais edificantes e que possam marcar o ingresso dos neófitos, em nossa mais que sesquicentenária Instituição.
Chamo atenção para este tema, por mais que ele possa parecer ultrapassado, porque com a implantação de mais um curso de formação de Soldados PM, com o funcionamento de diversos Núcleos instalados em diferentes Unidades Operacionais da PMBA, o assunto voltou a fazer parte da rotina de nossas atividades, uma vez que, com a chegada de novos companheiros, adveio também a necessidade de se adotar determinadas posturas para recepcioná-los, bem como no trato diário com os mesmos, quando das instruções que lhes estão sendo ministradas, momento este em que a velha dicotomia aqui em comento será contextualizada.
Digo isto não por ser defensor de uma das correntes de pensamento aqui apresentadas, mas porque entendo que quaisquer que sejam os excessos praticados, por certo os resultados obtidos não serão aqueles esperados, afinal todos desejamos uma Polícia Militar melhor preparada e que possa fazer frente aos inúmeros desafios que nos são impostos no limiar deste novo século.
Nas diversas conversas que tenho tido com meus colegas de caserna (superiores, pares e subordinados) tenho dito, repetidas vezes, que não se pode esperar resultados diferentes, se todos os dias nós fizermos a mesma coisa. Refiro-me ao fato de, historicamente, nas policias militares do Brasil, em cursos regulares ou de especialização, posturas equivocadas terem sido adotadas, no que concerne ao tratamento dispensado aos integrantes do corpo discente, fato que tem gerado distorções tais que, inclusive, contribuíram para o surgimento de anomalias das mais diversas, desde aquelas ligadas a desvios comportamentais, até dificuldades em assilimilar e/ou interpretar questões, que são fundamentais para o bom exercício das atividades relacionadas à manutenção da ordem e tranqüilidade pública.
O mais preocupante é que, para meu espanto e surpresa, dentre os Oficiais e Praças com menor tempo de serviço policial militar, impera a concepção de que aos recém egressos na Corporação deva ser dispensado o tratamento mais severo possível, com, sempre que oportuno (esta oportunidade quase sempre é criada) a introdução de castigos físicos. Pergunta-se: em que o fato de beber sangue de galinha ou outro animal qualquer, comer vísceras cruas, manter-se acordado por horas a fio, ser submetido a extensas sessões de atividades físicas sem prévio planejamento, ser colocado em contato com substâncias químicas (Gás Lacrimogêneo) por longo período, ser humilhado com palavras depreciativas (Monstro, animal), etc, contribuirá para uma melhor qualificação profissional daqueles que procuram a nossa Instituição? Por certo a “guerra” que travamos no nosso dia-a-dia requer outras competências que, certamente, só serão alcançadas com métodos mais adequados e não com posturas desumanas e degradantes como as que, infelizmente, ainda somos forçados a vivenciar, mesmo com o esforço do escalão superior da PMBA, que, tem buscado conscientizar os responsáveis pela área de ensino e formação de que os defensores das práticas adrede citadas se encontram na contramão da história e, devem, imediatamente, adotar posturas outras, voltadas para uma nova dimensão, uma vez que o caráter pedagógico da atuação policial não se coaduna com as práticas retrógradas aplicadas por alguns “instrutores”.
Como Cadete da Polícia Militar tive o desprazer de vivenciar uma experiência das mais traumáticas, e que marcou a minha vida pessoal e profissional. Refiro-me a uma Jornada de Instrução Militar realizada no ano de 1990. Naquela semana de instrução, dentre as muitas atividades que nos foram ministradas, ocorreu uma que deixou marcas em todos os integrantes da Turma Coronel PM Antonio Medeiros de Azevedo, Aspirantes 1990. Em um dado momento, quando assistíamos a uma aula sobre explosivos , fomos surpreendidos com uma ação que demonstrou extrema coragem e destemor de um Sargento que monitorava aquela instrução. Por uma falha no manuseio de dois artefatos, os mesmos vieram a explodir e, para evitar que o impacto atingisse os alunos que participavam daquele evento, o citado graduado, antes da explosão, segurou as “bananas” de dinamite com uma das mãos e as colocou próximas aos grandes glúteos, fato que fez com que o seu corpo sofresse sérios gravames, com perca de uma mão e seqüelas profundas na parte dorsal do PM em tela.
Mesmo com a gravidade do ocorrido, a instrução não foi interrompida e os responsáveis pela atividade apenas prestaram socorro ao Sargento e, inobstante o estado de choque que pairava entre os alunos, uma vez que partes da mão e pele do PM se espalharam pelo local, e se encontravam incrustadas, inclusive, em nossas camisas que estavam expostas nas proximidades, não nos foi dada nenhuma explicação sobre o que ocorrera, atitude esta que, mesmo com o objetivo de demonstrar a necessidade de fleugma frente a determinadas adversidades, surtiu o efeito contrário, haja vista que para a grande maioria da turma, aquilo demonstrou muito mais um descaso para com a vida do companheiro, do que frieza diante de algo que poderia acontecer conosco quando de nossas atividades futuras.
Finda a instrução, fui procurado por companheiros que me eram mais próximos, e era unanimidade entre eles que aquela instrução tinha marcado profundamente todos que dela participaram, e de forma especial, ouvi do então Aluno a Oficial PM Meneses, o quanto aquilo o tinha impactado negativamente. Coincidência ou não, meses depois este colega de turma foi acometido de um distúrbio de natureza psicológica, que o forçou a fazer um tratamento fora do nosso Estado, adiando, por conseguinte, a sua formatura, fato que só ocorreu em meados de 1991, quando muitos de nós já tínhamos sido promovidos ao Posto de 2º Tenente. O que nos entristece é que o pior ainda estava por vir, pois já na condição de Aspirante PM, e prestando serviço no 9º Batalhão em Vitória da Conquista, o saudoso LUIZ CLÁUDIO MENESES RIBEIRO, fazendo uso de um revólver calibre. 38, de propriedade da fazenda pública estadual, ceifou a sua própria vida, deixando órfãos de sua presença colegas de turma e seus familiares, principalmente seu genitor, que fora Praça da PMBA, e que nutriu por muito tempo o sonho de ter o seu filho mais velho, como integrante dos quadros de Oficiais da Corporação a qual dedicou os anos mais preciosos de sua existência.
Para os críticos e céticos de plantão, quero, de antemão, avisar que não havia contra-indicação psicológica para o ingresso de MENESES na PMBA, pois sei que é muito mais fácil buscar se inverter o ônus da culpa do que se esforçar na busca por soluções definitivas para problemas como estes que aqui busco evidenciar. Insisto que este ensaio não tem o condão de repelir posturas que se aproximam do tratamento mais “severo” que é dado a alunos dos cursos de formação, mas sim evidenciar que, como não se tem condições de estabelecer um perfil individualizado, não se pode submeter todo um grupo a um só método de pressão psicológica. As peculiaridades existem e devem ser respeitadas. É extremamente inconcebível, dentro dos padrões admitidos por nossa Instituição, entender que todos são iguais e que devem, portanto, receber a mesma carga de atividades, ainda mais quando esta plêiade de atribuições deixa de ser formativa e adquire o status de “deformativa”. Nós, ao ingressarmos na PMBA, fomos submetidos a uma bateria de testes, e, mesmo com a aprovação, não obtivemos conceitos iguais ou até mesmo semelhantes, o que indica que somos, mesmo que aptos, demandantes de necessidades diferenciadas, e que isto deve ser obrigatoriamente observado no período apropriado, que é o da formação.
Por fim, quero evidenciar que como o serviço policial militar é ofertado para cerca de 97% da população honesta, trabalhadora e carente de um serviço público de qualidade, não se pode admitir que durante a formação o futuro profissional de segurança pública, seja preparado para lidar apenas com a escória da sociedade, compreendida na faixa de 3%, que se encontram a margem da lei e dos demais regramentos sociais, daí porque insisto, na necessidade da adoção de uma postura avançada por parte daqueles que detêm o poder para implementar ações de ensino na nossa Instituição, evitando com isto que práticas ultrapassadas continuem a vigorar no nosso meio, contribuindo para que o título deste ensaio faça parte das manchetes de jornais impressos e noticiários televisivos, porque sem sombra de dúvida o seu limite é vizinho da minha irresponsabilidade.
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